O tinteiro exausto, a noite despida,
A caneta que arranha o papel sem pudor,
É o peito que verte a sobra da vida,
Na urgência bendita de expiar a dor.
Não há adereço, não há vaidade,
Na linha que rasga a folha em branco,
Há apenas o peso de uma verdade,
Que o silêncio arrasta com passo manco.
Amar, ser amado, chorar o que passa,
No eco do tempo que não volta atrás,
Olhar o afeto perdido na fumaça,
E a alma que busca um sopro de paz.
Escreve-se assim, no fio da navalha,
Espelho bruto de quem se perdeu,
Pois quando a voz se consome e falha,
O papel recolhe o que em nós ruiu.
E depois do rasto que a tinta deita,
Quando o eco do choro enfim sossega,
Fica a mesa posta, a cama feita,
E a ausência daquilo que se nega.
O papel aceita o que o mundo ignora,
Recolhe os estilhaços, junta o bocado,
Pois quem escreve expulsa o que chora,
Para não morrer preso ao passado.
Mas há um recomeço que o traço ensaia,
Um vagar mais leve no peito aberto,
Como a onda mansa que bate na praia,
Trazendo a bonança a este deserto.
Arrumei a caneta, fechei o livro,
O tinteiro dorme, a noite já vai,
No silêncio limpo, respiro e vivo,
Pois do que foi dor, o peso já cai.