Talvez tenha começado este verso mil vezes,
nunca no papel, mas no frio dos lençóis,
quando a madrugada insiste em não trazer o sono
e o vento finge a tua resposta.
nunca no papel, mas no frio dos lençóis,
quando a madrugada insiste em não trazer o sono
e o vento finge a tua resposta.
Li-te com os dedos trémulos,
como quem toca uma cicatriz antiga.
Cada frase tua é uma ausência,
cada ponto final, uma dúvida,
um "se" suspenso na distância.
como quem toca uma cicatriz antiga.
Cada frase tua é uma ausência,
cada ponto final, uma dúvida,
um "se" suspenso na distância.
Fiz de ti uma companhia muda,
um sussurro entre o café e a chuva,
com os olhos em brasa e as palavras cruas.
Mas a caneta afrouxa, perde-se o olhar;
não falta o que ver, sobra a tristeza.
um sussurro entre o café e a chuva,
com os olhos em brasa e as palavras cruas.
Mas a caneta afrouxa, perde-se o olhar;
não falta o que ver, sobra a tristeza.
Há um lugar em mim onde ainda é manhã,
onde cheira a desculpas e a café quente.
Escrevo-te para não desabar,
obcecada por uma vírgula que espera,
pois se o filme precisa de um clímax,
este amor precisa de permanecer suspenso.
onde cheira a desculpas e a café quente.
Escrevo-te para não desabar,
obcecada por uma vírgula que espera,
pois se o filme precisa de um clímax,
este amor precisa de permanecer suspenso.
Não cabe num envelope o que reprimimos.
Há um certo requinte no inacabado,
na delicadeza de não colocar um fim.
Guardar-te em rascunho é o meu único luxo,
para que nunca te vás embora por inteiro.
Há um certo requinte no inacabado,
na delicadeza de não colocar um fim.
Guardar-te em rascunho é o meu único luxo,
para que nunca te vás embora por inteiro.
Arrumei, enfim, a tua ausência na prateleira mais alta,
como quem guarda o livro mais querido:
longe do alcance do cansaço dos dias,
mas sempre visível ao olhar.
como quem guarda o livro mais querido:
longe do alcance do cansaço dos dias,
mas sempre visível ao olhar.
Já não dói o facto de não saberes.
O teu desconhecimento é o escudo
que protege a perfeição do meu sentir.
Se soubesses, terias de reagir,
e o feitiço, no real, quebrar-se-ia.
O teu desconhecimento é o escudo
que protege a perfeição do meu sentir.
Se soubesses, terias de reagir,
e o feitiço, no real, quebrar-se-ia.
O rascunho ganhou vida própria:
agora és a luz das cinco da tarde,
o passo apressado de alguém na chuva,
a música antiga que mais ninguém ouve.
Não te ter foi o modo mais absoluto
de te espalhar por tudo o que sou.
agora és a luz das cinco da tarde,
o passo apressado de alguém na chuva,
a música antiga que mais ninguém ouve.
Não te ter foi o modo mais absoluto
de te espalhar por tudo o que sou.
Dizem que o amor não vivido morre de fome,
mas que imenso engano.
O nosso não tem pressa, não tem contas,
não se desgasta com palavras ditas fora de hora
nem com as desculpas que chegam tarde.
mas que imenso engano.
O nosso não tem pressa, não tem contas,
não se desgasta com palavras ditas fora de hora
nem com as desculpas que chegam tarde.
Celebro hoje o espaço vazio que deixaste,
porque é nele que eu caibo inteira.
Não procuro o teu nome nas ruas,
deixo-te no altar sagrado do que poderia ter sido.
porque é nele que eu caibo inteira.
Não procuro o teu nome nas ruas,
deixo-te no altar sagrado do que poderia ter sido.
Ficas suspenso. Sigo a caminho.
E sorrio em silêncio, sabendo que,
na distância exata e indestrutível
entre o que somos e o que poderíamos ter sido,
nós ainda estamos prestes a acontecer.
E sorrio em silêncio, sabendo que,
na distância exata e indestrutível
entre o que somos e o que poderíamos ter sido,
nós ainda estamos prestes a acontecer.