Olha-me e diz-me, num sopro suspenso,
Se me sentes assim, só com o olhar,
Se no teu peito há um eco tão denso
Por não me veres e por me procurar.
Diz-me se buscas a fórmula exata
De me ter perto, colado ao teu ser,
Onde a distância enfim se desata,
E a nossa pressa se deixa esquecer.
Olha-me sempre, sem pestanejar,
Neste fascínio que nasce real,
Como se o mundo parasse de andar
E o nosso instante se fizesse eterno.
Há um brilho invisível que cresce e consome,
Mais forte que a força, mais puro que o bem,
Que grita em silêncio o teu próprio nome,
E no fechar de olhos te encontra também.
Mesmo na sombra que a ausência desenha,
Onde a distância se faz carrasca,
Há uma chama viva que se empenha
E o frio do espaço devora e afasta.
Não te vejo com olhos de carne e osso,
Mas sinto o traço do teu caminhar,
Neste silêncio profundo e tão grosso
Que só a tua lembrança consegue rasgar.
O ecrã que nos separa é deserto friorento,
Uma milha que se estende sem fim,
Mas a tua voz cruza o próprio vento
E faz-te nascer bem dentro de mim.
Fechar os olhos é encurtar o caminho,
Apagar os quilómetros que o mundo impôs,
Para saber que nenhum de nós está sozinho
Na geografia que criámos a dois.
A ausência é só um compasso de espera,
Um teste à força do que se plantou,
Pois mesmo longe, nesta atmosfera,
O teu olhar em mim se fixou.
Guardo este instante que o tempo não toca,
Farol que me prende à tua memória,
Onde o silêncio em nós desemboca,
E o teu olhar dá vida à nossa história.