loucuras de amor

O Mapa Rasgado

 

O adeus rasga o peito, silencia a palavra,
Deixa um eco vazio na sala de estar.
É a linha invisível que a vida traça,
Para o rumo de dois caminhos mudar.

A mala que fecha leva um pedaço,
Do tempo bonito que ali se viveu.
O que antes era o calor de um abraço,
Hoje é a sombra que o vento acolheu.

Chora o olhar que vê a partida,
E sente o inverno que o tempo nos traz.
Por vezes a dor de curar uma ferida
Deixa uma ausência onde havia paz.

Vais com a dúvida de quem perde o Norte,
E ficas com o espaço a desmoronar.
A despedida fere, e testa a tua sorte,
Num longo outono que custa a passar.

No novo quarto, o silêncio é profundo,
A mala pousada no chão por abrir.
Traz o peso exato de perder um mundo,
E o medo constante de ter de seguir.

Ao abrir o fecho, a saudade transborda,
Peças dobradas com restos de nós.
Cada detalhe na mente recorda
O som esquecido daquela tua voz.

E ao arrumar o guarda-roupa vazio,
O peito percebe o tamanho do breu.
O ar que entra é cinza e tão frio,
O céu lá fora também desbotou.

A mala vazia descansa a um canto,
Memória viva do que já passou.
Cobre-se o rosto, prolonga-se o pranto,
Por quem a vida, na dor, afastou.

Os dias passam em passos discretos,
As paredes brancas insistem em calar.
São os fantasmas de planos desfeitos,
Que teimam em ver-te a desabar.

A chave na mesa ainda pesa tanto,
O café da manhã não tem mais sabor.
Descobres, aos poucos, no teu próprio canto,
Que a solidão é o eco do amor.

É a lembrança da tua essência,
O mapa rasgado de quem se perdeu.
A dor que era outrora uma permanência,
Ficou na névoa que nunca cedeu.

Na janela aberta, a chuva molha o chão,
O mundo lá fora convida a esquecer.
Com a mala vazia e pesado o coração,
Segues os passos sem saber o que fazer.

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