A saudade tem este hábito cruel
de nos apanhar distraídos.
Vem do nada,
basta uma tempestade lá fora,
o céu a fechar-se sobre si mesmo,
e de repente o mundo inteiro
cabe dentro do peito.
Achávamos que já respirávamos sem dor.
Que o ar entrava e saía limpo,
sem tropeçar em memórias.
Mas a chuva…
A forma como ela bate nos vidros,
insistente, quase nervosa,
denuncia tudo.
Cada gota é um toque
no que fingíamos não sentir.
Cada rajada de vento
levanta o que julgávamos enterrado.
A tempestade é uma actriz perfeita:
faz de conta que vai passar.
Ruge, chora, grita
e promete silêncio.
Mas a dor aprende com ela.
Também se anuncia temporária,
como visita breve,
quando na verdade não vai a lado nenhum.
Apenas muda de canto.
Esconde-se. Espera.
E a saudade…
ah, a saudade é narcisista.
Não quer saber do tempo,
nem das cicatrizes,
nem das tentativas de seguir em frente.
Olha-se ao espelho
e só vê a si mesma.
Não pergunta se dói.
Não pede licença.
Entra e ocupa tudo,
como se ainda fosse dona da casa.
Ela não ama, reivindica.
Não lembra, impõe.
E enquanto a tempestade lá fora
vai acabar por se cansar,
a de dentro encontra sempre força
para recomeçar.
Porque há dores que aprendem a cair como chuva:
podem parar por horas,
por dias,
por anos…
mas nunca se despedem do céu.