loucuras de amor

O amplexo da Melancolia

Dá-me a imprecisão das manhãs que acordam estremunhadas,
secas ou meio molhadas, na bruma que não se desfaz,
onde a brisa faz estremecer a alma cansada,
e o silêncio do mundo nos devolve a paz.
Viste a manhã acordar assim, devagar,
desfeita em pedaços de cinza e vapor,
onde a cidade, na névoa a boiar,
esquece o ruído, a pressa e o motor.
Os prédios indistintos, as ruas engolidas,
parecem na estrada imagens demolidas;
caminhar pé ante pé é melhor que conduzir,
descobrindo, no nevoeiro, o chão a surgir.
Que se apague o sol de luz agressiva,
que prende o corpo a um eterno verão;
dá-me esta névoa que me deixa viva,
feita de silêncio e segredos na mão.
Névoa. Que não a do bafo ou do pó!
A levar ao desespero o corpo entediado,
ao sol sempre agrilhoado, sem rumo e só,
mesmo que o dia nasça ensombrado.
Deixemos o bafo dos dias queimados,
a rotina estanque de um sol sem calor,
queremos os passos que dão, deslumbrados,
com o mundo despido de traço e de cor.
Ainda que o sol possa ser agradável e brando
quando o vento sopra frio, desembestado,
é no mistério da bruma que me vou encontrando,
longe do brilho que deixa o olhar ofuscado.
Vem desse vento que sopra ao ouvido,
frio, cortante, a rasgar o vazio,
trazer o encanto que estava perdido
na margem deserta de um longo rio.
Dá-me o amplexo dos teus braços, o teu abrigo,
aperta-me bem para me confortares,
fustiga a tristeza que trago comigo,
enquanto me perco nos teus olhares.
Pois talvez ao apertares com tanta firmeza,
devolvas o sonho que o tempo desfaz,
daquelas manhãs cinzentas de pura beleza,
onde o vento assobia e nos traz os teus ais.
Prende-me então no teu peito cansado,
enquanto a tarde minguando arrefece,
deixa que o mundo ressurja moldado
na magia pura que a noite promete.

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