Talvez tenha começado mil vezes
esta carta que o vento guardou.
Nunca no papel, sempre em preces,
no silêncio frio que ficou.
esta carta que o vento guardou.
Nunca no papel, sempre em preces,
no silêncio frio que ficou.
Começava assim, sem saber
se ainda te lembras da minha voz,
no excesso que não sei dizer,
na ausência que cresceu em nós.
se ainda te lembras da minha voz,
no excesso que não sei dizer,
na ausência que cresceu em nós.
Li-te com os dedos trémulos,
como quem toca uma cicatriz antiga.
Entre os lençóis e os estímulos,
foste a saudade que me abriga.
como quem toca uma cicatriz antiga.
Entre os lençóis e os estímulos,
foste a saudade que me abriga.
Quase bati à tua porta,
dizer "morro por ti" e ficar.
Mas a caneta afrouxou, morta,
sem a essência do teu olhar.
dizer "morro por ti" e ficar.
Mas a caneta afrouxou, morta,
sem a essência do teu olhar.
A cada rascunho, uma lacuna,
um "se" suspenso, um "quando" sem depois.
Uma amargura que se acuna
no espaço que faltou a dois.
um "se" suspenso, um "quando" sem depois.
Uma amargura que se acuna
no espaço que faltou a dois.
Mas e se o mais profundo da vida
morar nas entrelinhas do que não foi?
Na palavra nunca proferida,
no abraço que na ausência dói?
morar nas entrelinhas do que não foi?
Na palavra nunca proferida,
no abraço que na ausência dói?
Não cabe tudo num envelope,
há um requinte no que é inacabado.
Deixo que o tempo o romance adote,
neste esboço que foi preservado.
há um requinte no que é inacabado.
Deixo que o tempo o romance adote,
neste esboço que foi preservado.
Amar-te assim, em segredo,
é amar-te eternamente possível.
Sem o fim que nos traz o medo,
tornas-te um mistério intangível.
é amar-te eternamente possível.
Sem o fim que nos traz o medo,
tornas-te um mistério intangível.
Fecho o caderno sem pressa,
a caneta descansa no papel.
Fazes-te trégua, promessa,
o meu rascunho mais fiel.
a caneta descansa no papel.
Fazes-te trégua, promessa,
o meu rascunho mais fiel.
Nas entrelinhas do tempo, a aquecer,
nós ainda estamos prestes a acontecer.
nós ainda estamos prestes a acontecer.
----------"------
Há um lugar em mim onde ainda é manhã
e a chuva embacia o vidro da janela.
A mesa posta acolhe uma ilusão fã,
a tua cadeira vazia à espera dela.
e a chuva embacia o vidro da janela.
A mesa posta acolhe uma ilusão fã,
a tua cadeira vazia à espera dela.
Imaginei-te sentado, com os olhos em brasa,
a segurar a chávena com dedos trémulos.
As tuas palavras cruas a ecoar pela casa,
enquanto o mundo lá fora perdia os estímulos.
a segurar a chávena com dedos trémulos.
As tuas palavras cruas a ecoar pela casa,
enquanto o mundo lá fora perdia os estímulos.
Fiz de ti uma companhia perfeitamente muda,
um sussurro que misturo entre o café e a chuva.
Uma trégua doce que a saudade ajuda,
na solidão que a pele salgada viúva.
um sussurro que misturo entre o café e a chuva.
Uma trégua doce que a saudade ajuda,
na solidão que a pele salgada viúva.
Procurei o teu nome que nunca chegou,
como um fim morno que ficou por escrever.
O aroma a desculpas que o tempo guardou,
no rascunho de um amor que só soube doer.
como um fim morno que ficou por escrever.
O aroma a desculpas que o tempo guardou,
no rascunho de um amor que só soube doer.
O mundo lá fora pode ser barulhento ou vazio,
mas sei exatamente a que página regressar:
ao calor desse café que ampara o meu frio,
onde, nas entrelinhas, ainda te oiço chegar.
mas sei exatamente a que página regressar:
ao calor desse café que ampara o meu frio,
onde, nas entrelinhas, ainda te oiço chegar.