I
O Universo que Recuperei
Dou-te o mundo em palmas, colho as estrelas,
Desenho caminhos na ponta dos dedos,
Trago segredos que nem sei como guardá-los,
Só para ver se acordas desses teus enredos.
Mas não adianta o universo que te entrego,
Nem o mar de afetos que a teus pés desaba,
Se o teu olhar, tão perto e tão cego,
Passa por mim como se eu fosse nada.
Estou aqui ao teu lado, corpo e presença,
Gritando em silêncio o amor que te dou,
Mas na tua fria e moldada indiferença,
Tu nem reparas em quem já se cansou.
Recolho as estrelas que deixei cair,
Apago os caminhos que o tempo pisou,
Se não me consegues ver nem sentir,
Liberto o espaço que o eco ocupou.
Não serei a sombra que te serve de abrigo,
Nem a eterna espera que nunca tem fim,
Cansei de gritar para estar contigo,
Agora o silêncio é o que escolho para mim.
Dou um passo em frente, fecho a cortina,
Deixo a tua ausência no mesmo lugar,
Pois quem não me vê na luz que ilumina,
Também não merece ver-me caminhar.
E quando o silêncio enfim fizer barulho,
Na sala vazia onde eu costumava estar,
Vais ver desabar o teu falso orgulho,
Ao notar a falta de quem te soube amar.
Procuras a sombra, o abrigo, o caminho,
Que os meus dedos desenhavam para ti,
Mas a casa é grande e o frio é vizinho,
E já não encontras quem esteve sempre aqui.
Chamas pelo eco que o tempo apagou,
Olhas para a luz e só vês a neblina,
A corda partiu, o cenário mudou,
E o teu ego chora atrás da cortina.
Olho o horizonte que se abre à frente,
Sem o teu vulto a tapar o meu sol,
O peito, que antes ardia dormente,
Liberta-se livre do teu triste anzol.
As estrelas que colhi e guardei na mão,
Já não pertencem ao teu frio altar,
São faróis acesos na minha escuridão,
A guiar os passos de quem vai recomeçar.
Não há mais espera, nem dor, nem segredo,
A vida renasce no espaço que é meu,
Curei-me do vício desse teu enredo,
E o mundo, de palmas, agora é quem mo deu.
II
O Grito do Arrependimento
(Espera, Não Vás)
Espera, não vás, não feches essa cortina!
Não deixes a casa vazia e no escuro,
A tua ausência é um ferro que me assassina,
E racha o cimento do meu peito duro.
Eu fui um cobarde, um cego, um demente,
Que não soube ver o milagre ao meu lado,
Gritei indiferença a quem era inocente,
E hoje sou eu quem morre isolado.
Perdoa o meu ego, o meu altar de gelo,
Eu quebro-o agora aqui aos teus pés!
Sei que te cansei, que causei o atropelo,
Mas não me condenes a ser quem tu vês.
Não recolhas as estrelas que deixaste cair,
Deixa que eu as mude de sítio por ti,
Não apagues os caminhos, não queiras fugir,
Diz-me o que faço para que fiques aqui!
Estou a sufocar neste silêncio maldito,
Que tu escolheste para te proteger,
O teu adeus é o meu pior pesadelo escrito,
A maior tortura que eu podia viver.
Eu puxo a corda que o meu erro partiu,
Tento colar o cenário que desabou,
Mas sinto o inverno que em mim progrediu,
Desde o segundo em que o teu passo ecoou.
Não me deixes preso a este triste anzol,
Que eu próprio criei na minha vaidade,
Não sigas em frente a olhar para o sol,
Deixando-me cego nesta tempestade!
Cura-me tu do vício do meu enredo,
Ensina-me a amar como tu me amaste,
Estou a tremer, a morrer de medo...
Não leves a luz que ontem me davas e hoje apagaste!
III
A Sentença do Silêncio
(O Meu Passo em Frente)
É tarde para o pânico que agora te consome,
E para os pedaços que tentas colar,
O vento levou o eco do meu nome,
E o meu coração já cansou de esperar.
Choras o inverno que tu próprio criaste,
Suplicas por luz na tua escuridão,
Mas lembras-te de quando me ignoraste,
E fizeste do meu peito a tua solidão?
Não há mais corda que mude o cenário,
Nem há remédio para o altar que ruiu,
O tempo não volta no meu calendário,
E a alma que amava, há muito partiu.
Fica com o gelo, com o teu enredo,
Aprende na falta o que não quiseste ver,
Eu já não tenho metades nem medo,
E não me restou mais nada para te dizer.
O meu horizonte não aceita a tua prece,
Os meus faróis apontam para outro lugar,
Quem a si próprio finalmente se oferece,
Nunca mais aceita voltar a rastejar.
Fica atrás da cortina que eu fechei com calma,
Chama pelo ontem que o vento escondeu,
Eu levo o mundo na palma da minha alma...
E o teu desespero já não é problema meu.