Há instantes que chegam com sabor de outrora,
um canto de rua, um gesto, um olhar,
que quebram a linha do tempo e do agora
e trazem a estranha impressão de voltar.
A mente hesita perante o cenário,
peito recorda o que nunca viveu,
será o reflexo de um rumo contrário
ou outra existência que a alma esqueceu?
É a memória a brincar com o espelho,
mostrando o futuro com traços do passado,
um truque sutil, um reflexo vermelho,
num livro de histórias que foi mal fechado.
Sentimo-nos donos de um tempo suspenso,
atores num palco que já foi pisado,
um elo perdido, um mistério tão denso,
que deixa o presente em nós enredado.
Talvez o destino não seja uma estrada
que corre em frente, sem nunca torcer,
mas sim uma teia que foi bem traçada,
onde o que há de vir já se fez acontecer.
E nesse segundo em que o tempo duvida,
a vida sussurra que o mundo é maior:
um eco bendito de uma outra vida,
que gira num ciclo constante e melhor.
E assim nos perdemos no cais do momento,
olhando a maré que não para de erguer,
trazendo na espuma um velho segredo,
que o próprio presente não sabe conter.
Será que a lembrança é só uma moldura,
de um quadro pintado noutra dimensão?
Um sopro de luz que na noite escura,
acende a centelha da nossa intuição?
Cruzamos esquinas de passos antigos,
saudamos fantasmas com rosto de amigo,
no livro do tempo não há inimigos,
apenas o rumo que levo comigo.
E quando o reflexo por fim se desfaz,
e a linha do agora regressa ao seu trilho,
a alma recorda, em passos de paz,
que o fim da jornada é só o início.